quarta-feira, 7 de março de 2012

Noite de Março



Ele entrou no seu quarto e pegou a caixinha de música que estava escondida sob uma pilha de roupas em uma de suas gavetas, deu corda e observou a pequena bailarina de vidro rodopiar ao som de Fur Elise. De repente, ouviu o barulho de uma porta batendo e fechou a caixinha assustado, com medo de que fosse seu pai, mas então lembrou-se de que ele, como de costume nessa data desde o acidente, estava em algum bar bebendo e só voltaria na manhã seguinte.

Aliviado e deduzindo que a porta deveria ter sido fechada pelo vento, ele pegou novamente o seu tesouro e deixou que a melodia composta por Beethoven preenchesse o quarto. Sabia que se o pai descobrisse a caixinha a destruiria e a jogaria fora como fez com as outras coisas que um dia pertenceram a ela. A única lembrança que havia sobrado era aquela caixa de música, que era guardada pelo rapaz como se fosse sua própria vida.

Ele se levantou da cama e pegou um par de sapatilhas que estava guardado junto com a caixinha. Tocou as sapatilhas com carinho e cuidado como se fossem de cristal. Outro pequeno tesouro que deveria ser mantido em segredo. O pai não compreendia, provavelmente nunca o faria. A dança fazia parte dele assim como fazia parte dela e, como um dia, fizera parte também do seu pai. Mas o velho homem, já muito amargurado, preferia esquecer, achava que assim seria mais fácil viver depois do que acontecera. Acreditava que se fingisse que ela nunca existiu talvez a dor um dia passasse. Ignorava qualquer coisa que pudesse lembrá-lo dela e agia como se o garoto fosse só seu, sem mãe. Já o rapaz preferia lembrar, porque assim, pelo menos em sua memória ela estaria sempre viva. Sabia que a dor nunca passaria, mas - a cada dia que se passava - ele aprendia a conviver com ela. Quando estava triste, a lembrança dela o fazia sorrir em meio às lágrimas. Para ele, lembrar machucava, mas esquecer machucava ainda mais.

Decidiu calçar as sapatilhas. Estavam apertadas, mas, para sua surpresa, ainda serviam. Ele se levantou e foi para a sala. De repente, tinha oito anos outra vez e ela estava lá. Segurava-o pela mão e o ensinava a dançar. Linda e elegante, ela parecia flutuar enquanto bailava pela sala.

''Foi assim que eu conquistei seu pai.'' - ela dizia - ''Ou ele me conquistou... não lembro bem quem conquistou quem. Mas de uma coisa eu lembro bem: ele nunca gostou de dançar solo, mas era maravilhoso dançando pas-de-deux ou qualquer dueto. E, com o tempo, descobrimos que éramos ótimos parceiros em muitas outras coisa além da dança. E, depois que você nasceu, percebemos que sempre estaríamos juntos... em você.''

10 comentários:

Anônimo disse...

CARACAS ME ARREPIEI TODINHA COM ESSA HISTÓRIA!!! Como eu posso classifica-la além de LINDA??? É sempre um deleite ler os teus textos Van! Eu amo de verdade, esse em particular me fez prender a respiração viu? MUITO SHOW!

Vanessa Carneiro disse...

Obrigada princesa =D

Anônimo disse...

a linda história de um guri....... GAY.
hsuahsuahsuas.
Merec a criação da história do pai, na mesa de um bar. Ele certamente sentia tanta dor quanto o filho.

Vanessa Carneiro disse...

Ele não é gay. Que pré-conceito com o menino! auhsuahushauh Se por acaso eu pensar em alguma história pro pai eu te mostro Raul.

Juliana Vieira disse...

Me arrepiei no final! Sério! Quando li o comentário de dani vi que nao estava só hehe Texto lindo, vanessa!

Anônimo disse...

Linda a história!! Seria um trecho de algum livro em andamento? haha
nessinha, ainda irei ver teu nome em vários livros e quero uma dedicatória só pra miiiiiiiiiim HSAUHSAHUSAHSHUSHSHU


ps: Tadiinho, o pai dele deixava ele sozinho em casa? sem ninguém?? T.T


Carol

Vanessa Carneiro disse...

Obrigada Ju. Não Carol, esse aí é só um conto, mas tu sabe que no dia em que eu criar vergonha na cara e terminar um romance o primeiro vai ser dedicado só pra você né?
ps: Deixava sim, ele não era mais criança ^^

Gladson Fabiano disse...

^^" E tragédias dão belas histórias e significações e resignificações.. Bjo Dancer. Parabéns!

Anny Leticia disse...

Muito bom,Vanessa!Assim com a Dani e a Ju,me arrepiei aqui.Parabéns,viu?
Fico no aguardo do próximo texto,tah?!rs!
Bjão!

Luis Gustavo Sodre disse...

Lindo demais! *u*